TECNOLOGIA SOCIAL E A ETNOMATEMÁTICA


 Comunicação Científica

SOBRE A TECNOLOGIA SOCIAL E A ETNOMATEMÁTICA DE UMA

MARCENARIA COLETIVA FEMININA

 

GT 03 – História da matemática e etnomatemática

Renata Cristina Geromel Meneghetti, Instituto de Ciências Matemáticas e de  Computação, Universidade de São Paulo, rcgm@icm.usp.br

Geisa Zilli Shinkawa, Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, geisa_zilli@hotmail.com

Ricardo Kucinskas, Departamento de Matemática, Universidade Federal de São Carlos, kucinskas03@hotmail.com

Resumo: Este trabalho foca a Educação Matemática no contexto da Economia Solidária e da Tecnologia Social e tem como sujeito uma Marcenaria Coletiva Feminina, caracterizada como um empreendimento em Economia Solidária. Dentro desse contexto e também considerando os pressupostos teóricos da Etnomatemática, neste artigo visamos traçar o plano material da Tecnologia Social desse grupo e discutir sobre o papel desempenhado pela Educação Matemática neste processo. Tal investigação segue uma abordagem qualitativa e se deu por meio de entrevistas semiestruturadas e observação participante realizadas com as integrantes do grupo. Por meio da análise dos dados foi possível destacar as experiências e limitações do grupo, e com isso apontar as possibilidades de intervenção social, em relação ao plano material da Tecnologia Social e a Matemática utilizada nesse contexto específico.

Palavras-Chave: Educação Matemática; Economia Solidária; Plano Material da Tecnologia Social; Etnomatemática; Marcenaria Coletiva Feminina.

Introdução

       Segundo Moreira (2006), para que a educação desempenhe satisfatoriamente seu papel de educar os cidadãos na sociedade contemporânea, faz-se necessário que estes conheçam e estejam familiarizados com assuntos relacionados à Ciência e à Tecnologia (C&T), mas grande parte da população brasileira não tem acesso à educação científica e às informações de qualidade no que se refere à C&T. De acordo com Lima, Neves e Dagnino (2008), a promoção da popularização da ciência tem como finalidade o estímulo à inclusão social, ou seja, o indivíduo que compreende melhor o mundo pode opinar em questões que envolvem C&T, fazendo valer seus direitos e contribuindo com sua própria inclusão social.

       Segundo Asseburg e Gaiger (2007), o combate à exclusão social não deve ocorrer apenas por meio de auxílio governamental, mas deve-se proporcionar à população excluída oportunidades para que ela seja a agente na busca por sua dignidade, para que possa melhorar suas condições de vida e sobrevivência. A Economia Solidária apresenta-se como uma das maneiras de (re) incluir esta população marginalizada, uma vez que se aproxima das pessoas através de experiências e procura soluções coletivas a partir de iniciativas próprias de tal população. Em síntese, a “Economia Solidária é compreendida como o conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito – organizadas e realizadas solidariamente por trabalhadores e trabalhadoras sob a forma coletiva e autogestionária.” (BRASIL, 2006, p.11,12).

     Dentre os diversos tipos de Empreendimentos em Economia Solidária (EES) existentes, focalizamos neste trabalho uma Marcenaria Coletiva Feminina (MCF), que se constitui como um empreendimento econômico coletivo no qual suas sócias têm direitos e deveres semelhantes. Este empreendimento localiza-se em um assentamento rural e a maioria de suas sócias teve que trabalhar na roça desde criança para ajudar no orçamento familiar. Elas também afirmaram durante as entrevistas que a marcenaria significa o aumento suas rendas mensais; portanto, sofrem com carências materiais e educacionais.

      Outro campo que merece destaque no que se refere ao combate à exclusão social, sobretudo na MCF, grupo em que estão inseridas e que frequentam diariamente é o campo Educacional. Para Brandão (1986) a educação, quando se fala no panorama social, é a condição da permanente recriação da própria cultura sendo, por isso, a razão da dominação da cultura entre outros. Do ponto de vista individual, a educação é a condição de criação do indivíduo, é a relação de saber das trocas entre pessoas. A ciência Etnomatemática apresenta-se como uma forte vertente da Educação Matemática e é caracterizada como a Matemática praticada por variados grupos com diferentes valores culturais, sendo que os membros destes grupos estão unidos por objetivos e tradições comuns.

      No campo da C&T, o presente trabalho abordará a Tecnologia Social (TS) utilizada pela MCF, sendo esta definida “[…] como produtos, técnicas e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social” (DAGNINO et. al., 2006, p. 9).

      De acordo com Dagnino et. al, a TS acontece em dois planos, o plano conceitual e o plano material, e para ser desenvolvida é necessário que haja interação contínua entre estes planos. O plano conceitual pode ser entendido como um modo de intervenção social inclusiva, com construção de conhecimento (em C&T) participativa; e o plano material se constitui considerando a experiência (que deve ajudar a solucionar as mais diversas questões sociais), as limitações específicas de cada comunidade ou grupo e as possibilidades para intervenção social. A experiência, do modo como aparece neste trabalho, pode ser entendida como aquela que se dá por meio da vivência que, neste caso em particular, refere-se à vivência deste EES. Compreendemos o termo vivência no sentido posto por Berkeley, remetendo à percepção. Para esse filósofo, ao lado de uma variedade infinita de ideias ou objetos do conhecimento, há alguma coisa que os conhece ou percebe, e que realiza diversas operações como querer, imaginar, recordar a respeito deles. Este ser ativo que percebe é chamado de mente, espírito, alma ou eu. (BERKELEY, 19801 apud MENEGHETTI, 2010).

      Assim, no contexto da Etnomatemática, o objetivo principal deste trabalho é tentar compreender como a TS é entendida e utilizada no interior da marcenaria pelos seus membros, especificamente em seu plano material, e qual o papel desempenhado pela

Educação Matemática, sobretudo pela Etnomatemática, neste processo. Para tanto, traçarse-ão as características do plano material acima descrito, ou seja, serão estudadas algumas experiências das integrantes da MCF, obtidas por meio de entrevistas semiestruturadas e observação participante, com o objetivo de verificar as limitações e as possibilidades, a fim de buscar direcionamentos para intervenção e verificar como a Matemática se comporta neste contexto. No que segue, num primeiro momento, apresenta-se um breve histórico da MCF, sujeito desta pesquisa.

A Marcenaria Coletiva Feminina (MCF)

      A MCF está sendo incubada pela INCOOP2 e pelo HABIS3 e é atualmente composta por um grupo de quatro mulheres da faixa etária de 40 a 60 anos. As atividades na marcenaria iniciaram-se em meados de 2004 com a construção de componentes como janelas e portas para suas próprias casas no assentamento. Hoje, após a construção das casas, existe a possibilidade de aprender uma nova atividade que possibilite a geração de renda. A marcenaria encontra-se consolidada e bastante equipada, e agora, encomendas externas começam a aparecer. Entretanto, surgiram algumas dificuldades, entre as quais se destacaram aquelas referentes à aprendizagem dos conteúdos matemáticos envolvidos nas atividades do dia a dia dessas marceneiras.

      Com a intenção de colaborar com esse EES (em virtude da situação de carência material e educacional existente) neste trabalho buscamos traçar o Plano Material da TS, no contexto da Economia Solidária e da Educação Matemática (mais especificamente da Etnomatemática) com o propósito de subsidiar propostas educacionais futuras, a fim de diminuir as dificuldades encontradas pelas sócias da marcenaria no processo de fabricação e comercialização de seus produtos.

      Neste trabalho pretende-se unir a Economia Solidária, o Plano Material da TS e a Educação Matemática (por meio do Programa Etnomatemática), a fim de propiciar que os saberes proporcionados pela vida e trabalho no grupo sejam utilizados como um facilitador do trabalho das sócias. Como será possível observar, a Economia Solidária possui estreitas relações com a TS, que traz ideias antagônicas às expostas pela Tecnologia Convencional (TC). Nosso referencial teórico se pauta em Economia Solidária, Tecnologia Social e Etnomatemática. Tais assuntos serão tratados no que segue.

Sobre a Economia Solidária

       Pode-se entender o conceito de Economia Solidária como uma associação igualitária, o que impossibilita a divisão da sociedade em classe dominante e classe subordinada a esta classe dominante. Assim, quando se pensa em Economia Solidária, temse em mente um modo de produção que tem como alicerce a igualdade, o que a caracteriza como uma alternativa para a superação do capitalismo, por meio da cooperação entre os participantes. Por isso, ações como estas geralmente acontecem por parte dos mais pobres, empregados e que foram desprivilegiados pela sociedade do capital.

      Desse modo, percebe-se uma estreita relação entre Economia Solidária e a Educação de Jovens e Adultos (EJA), pois, segundo Arruda (2005), a EJA existe por causa dos excluídos, crianças que não tiveram direito à educação e, por isso, entende-se que a EJA esteja relacionada com populações pobres ou empobrecidas. Mas, com o passar do tempo, esses jovens e adultos acumulam e trazem consigo saberes proporcionados pela vida, isso deveria ser levado em consideração em processos educacionais voltados para essas pessoas.

Sobre a Tecnologia Social

      Como visto anteriormente, as condições de trabalho precárias vividas por um número significativo de indivíduos é responsável por grande parte das desigualdades sociais e econômicas presentes na sociedade atual, além de dar origem a grupos que buscam construir um pensamento contrário ao dominante (DAGNINO et. al., 2006). De acordo com esse documento produzido pelo GAPI (Grupo de Análise de Políticas Públicas), alguns destes grupos atribuem à tecnologia mudanças na sociedade, inclusão digital e construção de uma sociedade justa e sustentável; enquanto outros apontam a tecnologia como um instrumento que mantém a desigualdade social existente e é utilizado como ferramenta de dominação do trabalhador. Como se pode perceber, a sociedade atual atribui papéis antagônicos à tecnologia, o que leva à criação da Tecnologia Social (TS) e da Tecnologia Convencional (TC), que se distanciam significativamente por uma série de características.

       Mas é interessante evidenciar que, conforme se vê no trabalho de DAGNINO et. al.(2006), há também projetos sociais e experiências relacionadas ao fomento tecnológico que obtiveram sucesso, mas que ficavam restritos ao meio em que aconteciam; devido a isso, criou-se a Rede de Tecnologia Social (RTS), que surgiu oficialmente em abril de 2005. A RTS, segundo Dagnino, Brandão e Novaes (2004), é uma boa opção para tentar solucionar os problemas sociais que apresentam relações com a dimensão científico-tecnológica e com a adoção de políticas públicas que abordem a relação CTS coerente com a realidade e o futuro a ser construído.

Sobre a Etnomatemática

       De acordo com D’Ambrosio (1998), a etnomatemática surgiu da união destas três palavras: Etno: contextos culturais; linguagens específicas; códigos de comportamento; simbologias; práticas sociais; sensibilidades; Mathema: conhecimento; explicação; compreensão; Tica: “tchné” ( raiz etimológica dos termos “arte” e “técnica”). O objetivo do Programa Etnomatemática é analisar como, ao longo da sua evolução, a espécie humana gerou e difundiu artes e técnicas, com a finalidade de entender, explicar, lidar com o ambiente natural, social e cultural, próximo ou distante, assumindo o seu direito e capacidade de modificá-lo. Ainda, segundo D’Ambrosio (2001), em seu Programa Etnomatemática, a capacidade de explicar, de apreender e compreender, de enfrentar, criticamente, situações novas, constitui a aprendizagem por excelência. Assim, a aprendizagem não é concebida como simples aquisição de técnicas e habilidades e nem a memorização de algumas explicações e teorias. Cada indivíduo organiza seu processo intelectual ao longo de sua história de vida.

       A etnomatemática aparece para relacionar os saberes e fazeres de uma cultura: o empírico e o teórico, porém como vivemos em sociedade cada vez mais “multicultural”, segundo Moreira (2009), a Etnomatemática não é mais associada apenas aos estudos focados na Matemática de grupos minoritários e distantes da realidade próxima. Então, essa multiculturalidade nos faz ver a educação como “um processo vasto com a presença de vários protagonistas que utilizam diferentes estratégias e tecnologias” (MOREIRA, 2009, p. 60). A vida de cada indivíduo nos leva, antes de tudo, a uma análise do local em que ele está inserido. Isso nos mostra a importância de se ter um bom conhecimento do local de trabalho, no nosso caso da marcenaria MCF, para se conhecer a Etnomatemática do grupo e trabalhar a Educação Matemática de forma contextualizada.

Procedimentos Metodológicos

       Esta pesquisa, da forma como se estrutura, possui caráter qualitativo (BOGDAN, R.; BIKLEN, S., 1994) e os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas e observação participante, realizadas com as três senhoras que constituem o grupo, denominadas aqui por A, S, C, a fim de preservar suas identidades; D, porém, não participou dessas entrevistas porque esteve ausente do empreendimento enquanto cuidava do marido, o qual apresentava problemas de saúde.

       Neste trabalho, optou-se pela entrevista semiestruturada pelo fato desta apresentar certo grau de estruturação ao se guiar por uma relação de pontos de interesse do investigador ao longo da pesquisa e também pelo fato de preservar a espontaneidade do processo. Para efetuar as entrevistas, foi utilizado um roteiro, elaborado previamente, com diversas questões, que abordaram os seguintes itens: alguns mais gerais, contemplando: o tempo que cada sócia trabalha na marcenaria, a função exercida e o grau de escolaridade; e outros mais específicos, referentes à percepção das marceneiras sobre a Matemática que utilizam no trabalho e a Matemática Escolar.

       Utilizamos a observação participante como uma das formas de coleta de dados. Apresentamo-nos ao grupo como pesquisadores e deixamos claros os objetivos de nossa pesquisa. A observação participante foi também um elemento fundamental para traçar o histórico do grupo, já posto anteriormente.

       Com base nas questões apresentadas, nas respostas dadas (por C, S e A) fundamentados na análise das unidades de significados, procurou-se caracterizar o plano material da TS, que pode ser observado através de experiências, limitações e possibilidades das integrantes do grupo diante de assuntos que abordam o tema Tecnologia, sobretudo aquela pensada e executada pelas mesmas pessoas, ou seja, aquela que é criada em um determinado local e utilizada neste mesmo local para atender às suas próprias necessidades (DAGNINO, BRANDÃO e NOVAES, 2004). Também se efetuou um levantamento dos conhecimentos matemáticos que possuem as integrantes do GFSC, conhecimento este essencial na criação e execução da TS.

Sobre a Análise dos Dados

    Com relação ao tempo em que estão inseridas na MCF percebe-se que a marceneira C é a mais recente e trabalha na marcenaria há seis meses, enquanto a marceneira S e a marceneira A fazem parte deste empreendimento há seis anos, desde a sua criação.

       A respeito do grau de escolaridade de cada uma das integrantes do grupo, nota-se que a marceneira C estudou até a 8ª série (9º ano) e é a que possui o maior grau de escolaridade, a marceneira S estudou até a 4ª série (5º ano) e a marceneira A até a 6ª série (7º ano). Elas voltaram a estudar recentemente e encontraram alguns obstáculos, que as levaram, com exceção de A, a desistir dos estudos. Para C o ensino é muito fraco, já S não conseguiu acompanhar a Matemática ensinada, que era o conteúdo que mais lhe interessava devido à sua função na marcenaria e A encontrou dificuldades em frequentar a escola devido ao trabalho e aos problemas de saúde de seu marido.

       Durante as observações realizadas (posteriormente às entrevistas) foi possível perceber, a partir dos relatos das marceneiras, que elas possuem grande desejo e interesse em aprender informática e de realizar cursos de capacitação, a fim de que tais aprendizados venham a facilitar o trabalho realizado por elas na MCF. A marceneira S relatou-nos também que tem a intenção de retornar à escola no próximo ano, enquanto C disse ter voltado a estudar.

       Ao perguntarmos às integrantes da marcenaria se elas conseguem perceber a Matemática presente em atividades do dia a dia do grupo e onde esta Matemática pode ser encontrada,  percebemos que há limitações por parte das marceneiras. A integrante C afirma perceber tal ciência em muitas situações, porém sente muitas dificuldades em fazer uso dela, principalmente no orçamento. A marceneira S cita que a Matemática está presente no orçamento e nas compras, mas não sabe utilizá-la, deixando esta tarefa para C. A marceneira A também cita tarefas do cotidiano do empreendimento onde utiliza conhecimentos matemáticos – medidas, quatro operações fundamentais, orçamentos – e afirma ter muita dificuldade, solicitando constantemente a ajuda de C.

       C: “[…] minha capacidade é pouca pra o que eu faço aqui. […] O orçamento eu que faço, tento fazer, né? […] Eu uso a Matemática do jeito que eu aprendi. Mas eu sei que tem maneiras ‘mais fácil’ hoje em dia, né? […] Então, faz falta pra mim. […]”

       S: “Ah! Percebe, porque no orçamento, né? Nas compras que é a C que faz, né? E eu já não consigo fazer isso. […] Mas para fazer, assim, orçamento e acertar conta, de jeito nenhumEntão eu não faço isso… porque eu não sei.”

      A: “[…] Nas metragens, nas medidas, dividir a metade, né? […] Ai você não sabe como medir… A gente vai dividindo aos poucos, vai assim, de um jeito até chegar lá, né? Aí eu falei que se a gente tivesse a Matemática… […] A gente fica lá sofrendo, aí eu falei: ‘Ah, gente, vou estudar, sim, né?’ Aí tem vez que não tem uma pessoa lá pra ajudar a gente, a gente começa a fazer e demora muito tempo também. […] Tem o orçamento, a gente não sabe de nada… […] Até que as continhas dos dias trabalhados até que eu ‘tava’ indo bem, […] já ‘tô’ pegando o jeito. Mas de orçamento, assim, metragem de madeira, eu não sei ‘de nada’, não sei!”

       No que diz respeito às dificuldades encontradas pelas marceneiras, C diz não ter aprendido os métodos para efetuar os cálculos necessários, S diz ter muita dificuldade para efetuar divisões, mas pede auxílio para a marceneira C. Já a marceneira A afirma

Comunicação Científica apresentar dificuldade para efetuar cálculos, mentais ou não, que envolvem as quatro operações fundamentais e que necessitam da tabuada.

       C: “Ah! Os métodos, né? Que eu não aprendi.

       S: “Ah, é muita dificuldade. Eu não passo muito porque é a C que faz, né? Porque era ela que fazia. […] Mas faz muita falta pra gente. Às vezes ficava com o dinheiro aí e não tinha como fazer divisão porque ‘nós não sabia’ (….)”.

       A: “É, ‘as conta de hoje é diferente’ de antes, né? […] Eu aprendi fazer conta longa e agora é diferente, né? Eu acho muito difícil. E fazer conta de cabeça também. […] Isso daí é um pouco difícil. A gente indo, indo não consegue tem que ir contando lá, né? (risos) Com o dedo. Eu sou muito ruim de tabuada. Preciso aprender tabuada ainda…”

       Por fim, perguntamos como elas efetuam os cálculos a fim de cortar um pedaço de madeira para a confecção de um móvel. Achamos interessante o relato da marceneira A, que coloca claramente o papel desempenhado pela experiência, ao afirmar que está sabem as quantidades de peças para fabricar uma cadeira, o difícil é calcular as medidas que cada uma deve ter.

       A: “Ah, a gente pega a trena e vê um pedaço de madeira que dá pra fazer, quando não dá, vai arrumando uma quantidade que dá. Aí eu peguei e fiz uma receita, peguei a medida de uma cadeira, a parte de trás, a parte da frente, aí eu falei: ‘Vai tanto…’. Daí eu comecei a fazer a conta, eu acho que vou ter que fazer tabuada. […] Falei ‘vamos ver se vai dar certo’ porque

Matemática… Aí a quantidade de peça que ia, só que eu não sei, assim, a quantidade de madeira, né? Aí eu não sei; e a quantidade de peça a gente sabe. “Fiz uma receita lá pra ver se vai dar certo, pra dez cadeiras.”

       Desta forma, podemos perceber que as integrantes desse EES buscam utilizar diferentes estratégias de Tecnologia Social, como criar um procedimento de confecção, realizado por meio de sua experiência por tentativa-e-erro. Assim, elas buscam também solucionar seus problemas sociais, procurando aumentar suas rendas, por meio do aumento de produtividade.

Resultados e Considerações

        As três integrantes entrevistadas deste EES, com faixa etária entre 40 e 60 anos, apresentam períodos de inserção no grupo bem diversificados, o que lhes conferem experiências também diferenciadas, visto que duas delas se encontram na MCF há seis anos e uma há seis meses. Apesar disso, todas demonstram bastante interesse, empenho e dedicação quando se referem às funções diárias que desempenham no interior da marcenaria.

       Também foi possível notar, por meio das entrevistas e da observação participante, que a experiência ocupa uma posição de destaque quanto à função exercida por cada uma das marceneiras na MCF em que estão inseridas, no que se refere aos afazeres diários de C, S e A. Por meio do relato da marceneira C, que afirma ser “ainda” uma ajudante, devido ao fato de não ter aprendido a operar as máquinas. É possível notar que S e A, as quais fazem parte deste empreendimento há mais tempo, transferem seus conhecimentos à marceneira C; elas dizem não medir esforços para produzir as encomendas dos clientes, mesmo que tenham que aprender para posteriormente confeccionar o produto. Assim, observa-se pela maneira como as sócias realizam seus trabalhos diários, que a experiência facilita este trabalho, e que os conhecimentos, sobretudo os conhecimentos matemáticos, são utilizados de forma contextualizada com este trabalho, enfatizando o papel da Etnomatemática neste contexto.

       No entanto, apesar do empenho das integrantes desse empreendimento, surgem diariamente dificuldades e limitações, tanto no que se refere à parte material quanto à parte educacional. Como limitações, pode-se citar o fato das marceneiras não dominarem a informática, ferramenta que viria a facilitar o trabalho desempenhado por elas na MCF; possuírem baixo grau de escolaridade e dificuldades para retomar os estudos e; consequentemente, apresentarem limitações em questões que envolvem conhecimentos matemáticos. Tais conhecimentos matemáticos, utilizados no interior da marcenaria para facilitar e viabilizar o trabalho das sócias pode ser notado, com base nas entrevistas e observação participante: no orçamento, nas compras, no cálculo das medidas de cada produto, nos cálculos que envolvem as quatro operações fundamentais, no cálculo dos gastos, no volume do tubo de cola, entre outros. Porém, C, S e A afirmam ter muitas dificuldades quando aos conceitos relacionados à Matemática, o que torna o ofício a ser desempenhado mais árduo e trabalhoso.

        Entendemos as dificuldades e limitações das integrantes desse EES para trabalhar com as ideias matemáticas, devido ao histórico de cada uma delas relatou durante as entrevistas. Porém, é notável a facilidade que essas sócias possuem para executar e compreender o funcionamento da Cadeia Produtiva do EES “MCF”, bem como o interesse em adquirir determinados conhecimentos matemáticos quando o assunto é relacionado ao contexto dessa marcenaria, por exemplo, à diminuição de gastos e aumento dos ganhos obtidos pela venda dos produtos fabricados.

       Logo, como possibilidade de intervenção social, baseados nos pressupostos teóricos da Etnomatemática, indica-se a importância de se trabalhar a matemática de forma contextualizada, visando uma aprendizagem consistente, promovendo um diálogo, respeitando os conhecimentos prévios das marceneiras e levando-as a construírem o conhecimento matemático de que necessitarem para seus afazeres do cotidiano de trabalho. Também é interessante colocar que, conforme se verificou nas entrevistas, as sócias da MCF demonstram um interesse muito maior em aprender conteúdos matemáticos que estejam relacionados e, portanto, facilitem seu trabalho no interior deste empreendimento, isto é, uma Educação Matemática contextualizada tem por finalidade facilitar o trabalho das sócias deste EES.

       Portanto, compreendemos que o Programa Etnomatemática pode ser útil para amparar propostas pedagógicas na direção de se trabalhar a Tecnologia Social de grupos específicos (no contexto da Economia Solidária), tal como o que foi focalizado nesse trabalho, de forma a considerar suas experiências, e utilizá-las a fim de superar suas dificuldades e limitações.

Agradecimento

       Os autores agradecem ao apoio financeiro concedido pela FAPESP (Fundação de amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). 

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Currículo Lattes de Geisa Zilli Shinkawa

http://lattes.cnpq.br/4134564563501656

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